quinta-feira, 31 de julho de 2014

ANDORINHA

Andorinha
Poema de Sebastião da Gama

Tonta de Poesia ,
caiu a manhã ....
É uma andorinha morta de cansaço .

Deixem-na ficar
caída no chão.
Não façam barulho
podem acordá-la .

Se ela se levanta
mesmo assim cansada
suas asas negras
cobrem o Sol .

Deixem-nas paradas,
suas asas meigas.
Sereninhas dormem
o seu vôo morto ...

quarta-feira, 30 de julho de 2014

CABO DA BOA ESPERANÇA

Cabo da Boa Esperança
Poema de Sebastião da Gama

A vela rasgou-se em fitas.
E quando ao mais. desde o casco
até à ponta dos mastros,
o fundo do Mar que o diga .

Cá por mim, passei o cabo.
Cheguei aonde o Destino
desde sempre me chamava.
Se estou sem pinga de sangue
depois de tantos naufrágios,
se arribei são ou doente,
se tenho os ossos partidos,
é melhor não pergunte-lo .

Basta saber que cheguei
e que é de lá que vos falo .

NOCTURNO SEGUNDO

Nocturno Segundo

Nem a sombra das passadas
quanto mais o rasto delas !
( No Céu ficaram Estrelas...
mas foi das suas dedadas )

Noite ! que quando mais morta
mais é a vida que tens ,
por onde será que vens
por que estrada e por que porta ?

Por onde foi que desceste
que não deixaste sinal
e o teu corpo de vestal
nos braços nus me puseste .

( um braço tinha- no chão.
O outro rentinho ao Céu .
A Noite se recolheu
inteira neste desvão . )

Mas que perguntas te faço !
Que sem razões que te digo !
Basta que durmas comigo
no ninho do meu abraço ,

terça-feira, 29 de julho de 2014

LIÇÃO DE OUTONO



Lição de Outono
Poema de Sebastião da Gama

Que alegria cantava pelos ninhos !
Festa ? Cortejo simples de noivado ?...
Rosa brava que o Sol tivesse aberto?
Fiozinho de água incerto
na secura das terras encontrado ?
Que luxo do Outono
é que alegrava assim aquelas aves ?

Já o Sol tinha dedos de cadáver.
Chocalhinhos monótonos de ovelhas
anunciavam a Noite ... Em tintas roxas
a glória azul do Céu se diluía .
Mas o coro das aves insistia,
ignorante da hora e da estação.
Não lhes levava o Sol o que lhes dera ...

( Poetas do meu pais, tão tristes, tão doentes,
o que fazíeis vós enquanto as aves
- começara o banquete p'la manhã ...-
mas bebendo Sol e Alegria ! )

Já num aceno, a Luz se despedia .
Só o gárrulo canto não cessava .
Insistente censura, me lembrava
quantas horas perdera
da refulgência mágica do Dia ...
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AGUARELA

Aguarela
Poema de Sebastião da Gama

Virgem de tudo, brinca
ao Sol uma menina....
Tem ainda no cirpo
embalos de berço.
Tem ainda nos lábios
sabor
do leite da Mãe .

A menina brinca,
virgem de tudo.
Ao alto, o Sol doira
seus cabelos pretos.
E a menina pensa
( não pensa que sente),
sente que são loiros
seus cabelos pretos .

segunda-feira, 28 de julho de 2014

BRINCADEIRA

Brincadeira
Poema de Sebastião da Gama

Ando a correr atrás do Outro
como fazem...
dois meninos brincando num jardim ...

... até me achar de repente,
sem saber como, o Outro lá da frente,
que vai fugindo de mim

PARA QUE TU NÃO CHORES

Para que tu não chores
Poema de Sebastião da Gama

O príncipe gentil que vislumbraste
nos teus sonhos rosados de Menina,...
e de gestor-perfume cristalina
voz que te mate a sede e nunca baste

( porque a sede que tinhas prolongaste
para sempre beber a voz divina ),
o príncipe gentil da tua sina
sou eu, Amor, tu próprio mo chamaste .

Mas se eu não fôr tão belo como creste ?
Se esfacelar teu sonho, porque eu ando
longe de ser o Puro a quem te deste ?

- Vamos lá procurar o que não veio
( eu bem sei que ele veio ) e, quando em quando,
deixa que eu chore à sombra do teu seio ..