terça-feira, 4 de novembro de 2014

CANÇÃO DA FELICIDADE


Canção da Felicidade
Poema de Sebastião da Gama

... Pois à minha vida
nada lhe faltava. ...
Minha taça estava
toda ela cheia.

Nem fazia ideia
que pudesse haver
mais algum prazer
que aquele que eu tinha.

Pela manhãzinha
pela tarde quente,
ninguém mais contente
pela rua andava.

As mãos, se as fechava,
as mãos, se as abria,
tudo quanto havia
tudo havia nelas.

Não pedia Estrelas,
não pedia flores,
não pedia amores,
porque os tinha já.

Que de enigmas há!
Como a Vida tem
coisas que a ninguém
passam p’la cabeça!

Antes que me esqueça
deixem-me contar:
hoje fui passear,
manhãzinha ainda,

e vi a mais linda
de todas as rosas:
pétalas sedosas,
vermelhas, brilhantes...

E eu, que tinha dantes
quanto me bastava,
nada me faltava
para ser feliz,

eu, que nunca quis
mais do que me deu
o favor do Céu
e o da humana gente,

fiquei tão contente
como se essa rosa
fosse misteriosa
flor que eu desejasse;

como se andasse
à procura dela
por faltar só ela
para ser feliz..

JANELAS DE ESTREMOZ



JANELAS DE ESTREMOZ
Poema de Sebastião da Gama

Janela fechada,
cortina corrida......
Nem flor a perfuma,
nem moça a enfeita.

- : Ninguém se lhe assoma.
Janela tão triste,
nem ao Sol aberta...

Em toda a cidade
se repete a história
mil vezes; mil vezes,
se olhares a janela
ou desta ou daquela
casinha caiada,
a vês divorciada
do Sol e de tudo
que graça lhe dera.

Há vinte janelas
na casa da esquina?
- Na rua de cá
dez estão fechadas;
outras dez fechadas
na rua de lá.
Ah! tão retraídas!
Ah! tão agressivas!

Que pessoas vivas
foi que as condenaram?

Ó janelas mudas,
 pobres prisioneiras!,
 que pessoas vivas,
 por que expiação,
 vivem na prisão
 em que vos meteram?
 - sem sol que as aquente...
 sem flor que as alegre...

Janela cerrada,
 cortina descida...

Mocinha escondida
 por trás da janela
- quanto mais não vale
 a rosa encarnada
 que a rosa amarela!...

ODE A UM AMIGO MORTO


Ode a um Amigo Morto. ( Ao Manel e ao Eurico)
Poema de Sebastião da Gama

Faltava-lhe a morte
para ser completo....
A taça estava cheia.
Faltava-lhe a pétala
da rosa
para transbordar.
A taça estava cheia
de amor e de esperança
e de mocidade.
Apétala caiu.
Transbordou a taça.
Mais pobre, só o Mundo.
Completo, só ele,
que morreu sereno
como quem o sabe.
 

FÁBULA



Fábula
Poema de Sebastião da Gama

Tinham murchado as rosas no jardim .

Chegou então, pra insultar as rosas
com o brilho da sua mocidade .

VIDA


Vida!,
Poema de Sebastião da Gama

Não me venhas roubar o meu tesoiro:
não te importes que eu ria,...
que eu salte como dantes.
E se eu riscar os muros
ou quebrar algum vidro
ralha, ralha comigo, mas de manso...

(Eu tinha um bibe azul...
Tinha berlindes,
tinha bolas, cavalos, papagaios...
A minha Mãe ralhava assim como quem beija...
E quantas vezes eu, só pra ouvi-la
ralhar, parti os vidros da janela
e desenhei bonecos na parede...)

Vida!, ralha também,
ralha, se eu te fizer maldades, mas de manso,
como se fosse ainda a minha Mãe..

domingo, 2 de novembro de 2014

MANHÃ NO SADO



"Manhã no Sado",
Poema de Sebastião da Gama

Brancas, as velas
eram sonhos que o rio sonhava alto....
Meninas debruçadas em janelas,
viam-se, à flor azul das águas, as gaivotas.
E a Manhã quieta (sorrindo, linda, vinha vindo a Primavera…)
punha os pés melindrosos entre as conchas.
Derivavam jardins imponderáveis
dos seus passos de ninfa
e tremiam as conchas
de súbitas carícias.

Longe era tudo: o medo dos naufrágios,
as angústias dos homens, o desgosto,
os esgares das tragédias e comédias
de cada um, os lutos, as derrotas.
Longe a paz verdadeira das crianças
e a teimosia heróica dos que esperam.

Ali, à beira-rio,
de olhos só para o rio, de ouvidos surdos
ao que não é a música das águas,
um sossego alegórico persiste.
Nem o arfar das velas o perturba.
Nem o rumor dos seios capitosos
da Manhã, que nas águas desabrocham
e flutuam, doentes de perfume.
Nem a presença humana do Poeta
- sombra que a pouco e pouco se ilumina
e se dilui, anónima, na aragem…

Sebastião da Gama

O SEGREDO É AMAR


O segredo é amar
Poema de Sebastião da Gama

Fosse mais bela a vida e mais sincera…
Como eu lhe quero, mesmo assim!...
Tanto lhe dei de mim
que já é menos acre do que fora.

Ah! bem me parece que o Amor melhora
quanto a graça de Deus não fez bonito.
Há lá coisa mais linda que um grito
quando foi o Amor que o pôs cá fora!...

Deixa ser o meu gesto uma grinalda
Nos teus cabelos, Vida!
Deixa que o meu olhar enflore teus olhos.

Adeus, adeus teus dedos ásperos!
Adeus teu rictus doloroso!

- Vida, quem é a minha namorada