sexta-feira, 19 de setembro de 2014

ZÉ D'ANIXA ( Pseudónimo de Sebastião da Gama )




IMAGEM : Pedra da Anixa ou Anicha ( Portinho da Arrábida )
«« ZÉ D'ANIXA »»
SABIA QUE :
OS PRIMEIROS POEMAS PUBLICADOS POR SEBASTIÃO DA GAMA
FORAM SOBRE O PSEUDÓNIMO DE «« ZÉ D'ANIXA »» EM JORNAIS COMO (Gazeta do Sul) E REVISTAS LITERÁRIAS (Brotéria, Távola Redonda) .

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

MANHÃ NO SADO

Manhã no Sado
Poema de Sebastião da Gama

Brancas, as velas
eram sonhos que o rio sonhava alto.
Meninas debruçadas em janelas,
viam-se, à flor azul das águas, as gaivotas.
E a Manhã quieta (sorrindo, linda, vinha vindo a Primavera…)
punha os pés melindrosos entre as conchas.
Derivavam jardins imponderáveis
dos seus passos de ninfa
e tremiam as conchas
de súbitas carícias.

Longe era tudo: o medo dos naufrágios,
as angústias dos homens, o desgosto,
os esgares das tragédias e comédias
de cada um, os lutos, as derrotas.
Longe a paz verdadeira das crianças
e a teimosia heróica dos que esperam.

Ali, à beira-rio,
de olhos só para o rio, de ouvidos surdos
ao que não é a música das águas,
um sossego alegórico persiste.
Nem o arfar das velas o perturba.
Nem o rumor dos seios capitosos
da Manhã, que nas águas desabrocham
e flutuam, doentes de perfume.
Nem a presença humana do Poeta
- sombra que a pouco e pouco se ilumina
e se dilui, anónima, na aragem…

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

TRADIÇÃO



Tradição
Poema inédito ( Não publicado em Livro )
De Sebastião da Gama

Os engenheiros vieram, mediram, olharam…...
Havia árvores velhas…
Mandaram deitar abaixo
e os homens deitaram.
Sem lamentos, sem ais,
as árvores caíram…
Mas os engenheiros não puseram mais;
em seu lugar apenas
três cardos enfezados refloriram.
E os cardos vis são gritos de revolta
das sombras errantes pelo Ar;
das sombras que tinham por abrigos
aqueles freixos antigos
que o machado foi matar.
As sombras gritam, mas os engenheiros
Não põem freixos novos no lugar.
 


PÃO NOSSO DE CADA DIA


Pão Nosso de Cada Dia
Poema de Sebastião da Gama

Chega até aqui o barulho do Mundo.
Só as vozes alegres, As tristes, essas, não....
.. Fazem um sussurro tão leve, tão íntimo ,
que só imaginando-as consigo ouvi-las.
Mas elas é que são mais verdadeiras
( mais verdadeiras, não ; mais constantes ) .

Ah! , é preciso acabar com isto.
Erguer as mãos (mas de protesto,
não de súplica pra Deus ,
a gritar : « Queremos a Vida, queremos a Felicidade.
Queremos o pão nosso de cada dia .

Nós que trabalhamos , que desejamos,
nós que merecemos. Senhor , nós que merecemos , queremos a vida , queremos a Felicidade .

Senhor, eu sou Poeta .Tenho pão e tenho vinho.
Posso gozar os Teus rios, as Tuas serras ,
a liberdade que me deste.
Sou quase feliz . Mas até onde estou
chegam, nítidas, as vozes de alguns como eu
e chegam , adivinhadas as dos tristes,
as dos que não têm nada
senão o direito de serem felizes também .

Eu aceito, Senhor,
que seja impossível compreender-Te .
E sei que que há para todas horas que são aleluias
-- mesmo para os mais desgraçados .
É enorme .
é grandioso a gente não compreender nada disto.

E no entanto minha incompreensão grandiosa,
minha aceitação grandiosa,
num instante se abatem. Simplesmente
porque tem menino magro, lá em baixo
no Mundo pediu-me pão.
Triste pediu-me pão,
como se o pão não devera ser gratuito como o Sol ...